1,5 milhão de baianos offline: o "six seven" da exclusão digital não é onda passageira
Dados da PNAD Contínua TIC, divulgada pelo IBGE, revelam que 1,5 milhão de baianos com dez anos ou mais não utilizaram a internet em 2024. No Brasil, o número chega a 20,5 milhões. O motivo principal, apontado por 45,6% dos excluídos, é de uma simplicidade brutal: não sabem usar.
O desequilíbrio da Bahia na inclusão digital não é fenômeno passageiro. A globalização não acabou — o que está seriamente abalado são as formas de negócio entre nações. Esse cenário coloca o Brasil numa posição de urgência: investir em tecnologia e inclusão digital para encontrar espaço na nova ordem mundial.
O Brasil tem mais espaço do que imagina
O Brasil tem mais espaço que outros países nessa reconfiguração global. A Bahia, com sua divisão territorial baseada no conceito geográfico de Milton Santos, é um caso exemplar para a democratização da tecnologia. Os 27 Territórios de Identidade, instituídos em 2007 pela Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais (SEI), oferecem uma estrutura pronta para levar polos tecnológicos aos interiores do estado.
Milton Santos (1926–2001), baiano de Brotas de Macaúbas e único brasileiro a receber o Prêmio Vautrin Lud, propôs uma leitura do território em que a desigual distribuição da informação e das finanças determina as possibilidades concretas de desenvolvimento. A regionalização baiana incorpora essa lógica. Falta vontade política para transformá-la em infraestrutura digital.
Automação de plantas industriais, tecnificação da agroindústria com sensores e drones, expansão de serviços intermediados por plataformas — tudo isso já acontece. Mas a população permanece à margem. Dados da pesquisa TIC Domicílios 2025 mostram que 86% dos domicílios brasileiros têm acesso à internet, porém a qualidade da conexão varia drasticamente. Na região Sul, 72% dos usuários acessam por fibra óptica; na região Norte, a maioria depende de dados móveis instáveis. A exclusão pelo analfabetismo digital já é realidade, e a urgência de incluir uma nação cuja grande maioria é carente não pode ser ignorada.
A gestão pública está no caminho certo?
Não. Os políticos não demonstram preocupação com projetos de democratização tecnológica nos interiores dos estados e nas periferias das cidades. A gestão pública ainda espera os passos da iniciativa privada, o que representa perigo e permeabilidade a discursos enviesados de todos os espectros ideológicos.
Em julho de 2025, o TCU publicou o Acórdão 1699/25 determinando a criação efetiva do Plano Nacional de Inclusão Digital. O Grupo de Trabalho Interministerial havia sido previsto pelo Decreto 11.542/2023, mas o Ministério das Comunicações só o formalizou em julho de 2025, com mais de dois anos de atraso. O ministro Aroldo Cedraz registrou no acórdão que, sem o PNID, o governo continuaria operando com ações fragmentadas que não formam estratégia coerente. A auditoria revelou que 12 milhões de lares brasileiros não têm acesso à internet.
O Papa entendeu o 'six seven', os políticos não
O 'six seven' entendido pelo Papa Leão XIV como meio de alcançar os jovens não é o mesmo percebido pelos políticos no Brasil. O Papa escolheu seu nome em referência a Leão XIII, autor da encíclica Rerum Novarum (1891), que abordou a questão social no contexto da primeira Revolução Industrial. Na mensagem para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais, publicada em janeiro de 2026, afirmou ser urgente introduzir a alfabetização mediática e em inteligência artificial em todos os níveis dos sistemas educativos. Para o pontífice, o desafio não é deter a inovação digital, mas guiá-la.
Essa percepção não é a mesma dos políticos brasileiros. Os governantes esbarram em conceitos retrógrados, dirigindo carros velhos de câmbio mecânico sem abrir mão de modelos de duas portas. As métricas traçadas a compasso não alcançam os algoritmos. Há um discurso de que é preciso compreender a inteligência artificial, quando na verdade não se precisa compreendê-la para fazer uso dela. A discussão correta não é entender a IA — é ampliar o acesso das pessoas às tecnologias. Não há como voltar atrás para impedir o avanço tecnológico.
A juventude perdida não precisa ser reconquistada
Um deputado da esquerda brasileira disse em entrevista recente que a direita ganhou a juventude e que a esquerda precisa reconquistá-la. Pesquisas do Datafolha e do Ipec confirmam o movimento: há crescimento do apoio a posições de direita entre eleitores jovens, sobretudo entre homens de 16 a 24 anos. Mas o diagnóstico está invertido. Os políticos continuam presos a uma ideia antiga do trabalho e do vínculo empregatício. O Brasil é altamente regulado nos vínculos trabalhistas, segundo levantamentos da Organização Internacional do Trabalho, e querem estender as amarras do passado para o ambiente digital — algo que a sociedade moderna não aceita. Isso distancia os jovens.
A esquerda não precisa reconquistar a juventude. Precisa perder o ranço, o carrancismo, e aceitar que as pessoas querem ganhar mais e ter mais liberdade. A direita, por sua vez, não entrega na prática o que promete no discurso, mas desperta a tendência de menos regulamentação e mais autonomia. Nenhum dos dois campos resolve o problema de fundo: como traduzir tecnologia em renda, mobilidade social e autonomia para quem historicamente ficou de fora.
O risco do treze de maio digital
O caminho que estamos tomando é tortuoso e perigoso, a ponto de causar uma exclusão semelhante à do 13 de maio de 1888. A abolição da escravatura, sem políticas de integração econômica e educacional para os libertos, produziu uma marginalização estrutural cujos efeitos persistem até hoje. O Brasil está na condição de um país que consome e não produz produtos digitais — algo alarmante que pode deixar muitas pessoas, no dia seguinte, descalças.
Já temos nome e sobrenome; faltam instrumentos para não cairmos na mesma alienação da decadência da Zona da Mata nordestina, retratada em Fogo Morto, de José Lins do Rego (1943), que narra com linguagem forte e poética o fim dos engenhos engolidos pelas usinas e pelo capitalismo moderno. A expressão 'fogo morto' designa o engenho que parou de moer. Regiões que não se conectarem à economia digital correm o risco de se tornarem os fogos mortos do século XXI.
Um placar que não precisa ser largo
A democratização das tecnologias é necessária e, em breve, será questão de sobrevivência. Levar polos tecnológicos para as cidades dos territórios pensados por Milton Santos é urgente, e não se sabe se é possível aguardar mais anos para superar uma exclusão que ainda nos acompanha. O desequilíbrio é grande e assustador — diferente do que viu o menino que entendeu que o jogo estava equilibrado e poderia ser fácil para o adversário superar. A falta de inclusão pode ser cruel, com um placar largo, mais parecido ao 7 a 1 que todos os brasileiros contemporâneos conhecem. O 'six seven' não é onda passageira. O GTI do Plano Nacional de Inclusão Digital acaba de ser formalizado, com mais de dois anos de atraso. O relógio da transformação tecnológica não espera portarias.