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1,5 milhão de baianos offline: o "six seven" da exclusão digital não é onda passageira

Neilton Almeida
tecnologia 9 min de leitura
Composição artística com placar eletrônico quebrado mostrando 7 a 1, de onde saem cabos de fibra óptica de um lado e fios inertes do outro, sobre um mapa fragmentado da Bahia com partes iluminadas e partes apagadas, cercado por pés descalços em silhueta e um compasso que se dissolve em código binário.

O desequilíbrio da Bahia na inclusão digital não é onda do "six seven". A globalização acabou? Professores, especialistas e jornalistas repetem essa tese com frequência. Mas a globalização não chegou ao fim. O que está seriamente abalado são as formas de negócio entre nações, e isso coloca o Brasil numa posição de necessidade urgente: investir em tecnologia e inclusão digital para encontrar espaço nessa nova ordem mundial. Os dados confirmam a urgência. Segundo a PNAD Contínua TIC divulgada pelo IBGE, 1,5 milhão de baianos com dez anos ou mais não utilizaram a internet em 2024. No Brasil, o número chega a 20,5 milhões. O principal motivo, apontado por 45,6% dos excluídos, é brutal na sua simplicidade: não sabem usar.

O Brasil tem mais espaço do que imagina

O Brasil tem mais espaço que outros países ricos nessa reconfiguração global. A Bahia, com sua divisão territorial baseada no conceito geográfico de Milton Santos, é o exemplo certo para a democratização da tecnologia. Os 27 Territórios de Identidade, instituídos em 2007 pela Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais (SEI), oferecem uma estrutura pronta para levar polos tecnológicos aos interiores do estado. Milton Santos (1926-2001), baiano de Brotas de Macaúbas e único brasileiro a receber o Prêmio Vautrin Lud, propôs uma leitura do território em que a desigual distribuição da informação e das finanças determina as possibilidades concretas de desenvolvimento. A regionalização baiana incorpora essa lógica. Falta vontade política para transformá-la em infraestrutura digital.

O mundo, o Brasil e a Bahia estão diante de uma realidade que já acontece: automação de plantas industriais, tecnificação da agroindústria com sensores e drones, expansão de serviços de profissionais autônomos intermediados por plataformas. Mas a população ainda está à margem dessa mudança. Dados da pesquisa TIC Domicílios 2025 mostram que 86% dos domicílios brasileiros têm acesso à internet, mas a qualidade dessa conexão varia drasticamente. Enquanto na região Sul 72% dos usuários acessam por fibra óptica, na região Norte a maioria depende de dados móveis instáveis. Já está havendo uma exclusão pelo analfabetismo digital, pela falta de entendimento de que é urgente incluir uma nação cuja grande maioria é carente.

A gestão pública está no caminho certo?

Não. Os políticos não têm a preocupação com projetos que pensem na democratização das tecnologias com estruturas para avanços nos interiores dos estados e nas periferias das cidades. A gestão pública ainda espera os passos da iniciativa privada, o que representa perigo e permeabilidade a discursos enviesados de todos os espectros ideológicos. Em julho de 2025, o TCU publicou acórdão determinando a criação efetiva do Plano Nacional de Inclusão Digital. O Grupo de Trabalho Interministerial havia sido previsto pelo Decreto 11.542/2023, mas o Ministério das Comunicações só o formalizou em julho de 2025, com mais de dois anos de atraso. O ministro Aroldo Cedraz registrou no acórdão que, sem o PNID, o governo continuaria operando com ações fragmentadas que não formam uma estratégia coerente. A auditoria revelou que 12 milhões de lares brasileiros não têm acesso à internet.

O Papa entendeu o "six seven", os políticos não

O "six seven" entendido pelo Papa Leão XIV como meio de alcançar os jovens não é o mesmo percebido pelos políticos no Brasil, e principalmente na Bahia. O Papa escolheu seu nome em referência a Leão XIII, autor da encíclica Rerum Novarum (1891), que abordou a questão social no contexto da primeira Revolução Industrial. Na mensagem para o 60º Dia Mundial das Comunicações Sociais, em janeiro de 2026, afirmou ser urgente introduzir a alfabetização mediática e em inteligência artificial em todos os níveis dos sistemas educativos. Para o pontífice, o desafio não é deter a inovação digital, mas guiá-la.

Essa percepção não é a mesma dos políticos no Brasil, e principalmente na Bahia. Os governantes estão esbarrando em conceitos retrógrados que vão na contramão, dirigindo carros velhos de câmbio mecânico sem abrir mão de modelos de duas portas. As métricas traçadas a compasso não alcançam os algoritmos. Há um discurso de que é preciso compreender a inteligência artificial, quando na verdade não se precisa compreendê-la para fazer uso dela. A IA é artificial. A discussão correta não é entender a IA, é ampliar o alcance das pessoas às tecnologias. Não tem como voltar atrás para impedir o avanço tecnológico.

A juventude perdida não precisa ser reganhada

Um deputado da esquerda brasileira disse numa entrevista recente que a direita ganhou a juventude e que a esquerda precisa reganhá-la. Pesquisas do Datafolha e do Ipec confirmam o movimento: há crescimento do apoio a posições de direita entre eleitores jovens, sobretudo entre homens de 16 a 24 anos. Mas o diagnóstico está invertido. O que acontece é que os políticos velhos ainda estão presos numa ideia antiga do trabalho e do vínculo empregatício. O Brasil é altamente regulado nos vínculos de trabalho, segundo levantamentos da Organização Internacional do Trabalho, e querem estender essa prática das amarras do passado para o digital, o que a sociedade moderna não aceita. Isso distancia os jovens.

O que precisa não é a esquerda reganhar a juventude. É o contrário: a esquerda precisa perder o ranço, o carrancismo, e acordar que as pessoas precisam ganhar mais e ter mais liberdade. A direita, por sua vez, não entrega na prática o que aborda no discurso, mas desperta a tendência de menos regulamentação e mais liberdade e ganhos. Nenhum dos dois campos está resolvendo o problema de fundo: como traduzir tecnologia em renda, mobilidade social e autonomia para quem historicamente ficou de fora.

O risco do treze de maio digital

O caminho que estamos tomando é tortuoso e perigoso, a ponto de causar uma exclusão próxima ou igual à que foi no 13 de maio de 1888. A abolição da escravatura, sem políticas de integração econômica e educacional para os libertos, produziu uma marginalização estrutural cujos efeitos persistem até hoje. O Brasil está na condição de um país que consome e não produz produtos digitais. Algo alarmante e que está próximo de deixar muitas pessoas no dia seguinte descalças. Já temos nome e sobrenome, só nos faltam instrumentos para não cairmos na mesma alienação da decadência da Zona da Mata nordestina, muito bem retratada em Fogo Morto de José Lins do Rego (1943), obra-prima que narra com linguagem forte e poética o fim dos engenhos engolidos pelas forças da usina e do capitalismo moderno. A expressão "fogo morto" designa o engenho que parou de moer. Regiões que não se conectarem à economia digital correm o risco de se tornarem os fogos mortos do século XXI.

Um placar que não precisa ser largo

As tecnologias dentro das instituições são necessárias e sua democratização é importante para a população. Em breve será questão de sobrevivência. Levar polos tecnológicos para as cidades dos territórios pensados por Milton Santos é urgente, e não se sabe se é possível aguardar outro tanto de anos para apagar os ranços de uma exclusão que ainda não superamos. O desequilíbrio da exclusão digital é grande e assustador, diferente do que viu o menino que entendeu que o jogo estava equilibrado e poderia ser fácil para o adversário superar. A falta de inclusão pode ser cruel, com um placar largo, mais parecido ao 7 a 1 que todos os brasileiros contemporâneos conhecem bem. O "six seven" não é onda passageira. O GTI do Plano Nacional de Inclusão Digital acaba de ser formalizado, com mais de dois anos de atraso. O relógio da transformação tecnológica não espera portarias.

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