Pulo do Gato News

O corpo dos governos tem dois braços: um abraça, o outro castiga

Neylton Almeida
política 7 min de leitura
Gravura editorial com silhueta de corpo sem cabeça e dois braços abertos, um abraçando uma sanfona e bandeirolas de São João, outro segurando uma balança da justiça desequilibrada, com fogueira se apagando no peito e formigas carregando dinheiro aos pés sobre terra rachada.

Demorou, mas chegamos a uma época de um outro Brasil, parecido com o de antes, da exceção. Um país medroso. O Estado torna-se em multi-corpo de dois braços: cada lado escolhe o seu, o esquerdo ou o direito, não importa qual, o corpo é o mesmo. É um Estado onde ser professor é vergonhoso, policial é medo, bandido é status, jornalista é incerteza, político é marca e pexa, cidadão é penoso e doutor é o único que se salva. Os braços regem a lei, a batuta impõe o ritmo, o braço da vez abraça ou castiga e cada dia desemboca em alternativas sem saída.

A imprensa encurralada

A imprensa está encurralada e é William Waack, do WW e do Estadão, que diz sentir-se ameaçado pela IA. O momento é apocalíptico, por não se saber a quem recorrer. As coisas acontecem a parecer sincronizadas, onde o Estado parece proteger os membros dele, mas espalhou-se e alcançou quem já estava à beira do ostracismo: Flávio José, um dos maiores nomes do forró tradicional brasileiro, viu o Ministério Público da Bahia recomendar a redução do seu cachê de R$ 350 mil para valores próximos da média de 2025 (R$ 250 mil), enquanto duplas sertanejas de fora do gênero recebem R$ 905 mil por show no mesmo São João. O sanfoneiro cancelou 15 apresentações na Bahia em protesto.

As redes sociais não dão furo, nem escândalo, muito menos investigação ou dossiê. O povo assemelha-se às formigas, as doces festas juninas são prova disso. Ainda parece estarmos em festa. Não se trata de Estado paralelo. É só um vertebrado que abraça e não protege com um dos braços, de meio abraço.

A safra dos prefeitos

O São João para o nordestino é sagrado e tão esperado quanto um bom ano de safra, farto que a vida remedia. As festas juninas há alguns anos têm sido a safra de muitos prefeitos, a volta da asa branca. Nessa época do ano, em clima ameno e frio, é que as gestões tiram a barriga da miséria. Exercícios de ganho precisam entrar em cena para dançar enquanto enchem alforjes e guaiacas, Norte a Sul.

Os números confirmam a escala: apenas em 2025, a média dos contratos de cachê nos festejos juninos da Bahia saltou de R$ 200 mil para cerca de R$ 700 mil ao longo de quatro edições, segundo o MP-BA. A União dos Municípios da Bahia lançou em março de 2026 a campanha 'São João sem milhão', estabelecendo teto de R$ 700 mil. Acordos com cerca de 180 artistas resultaram em economia estimada de R$ 8,8 milhões aos cofres públicos. A questão não é o ritmo, é a oportunidade que o São João sem querer entrega sua cabeça na bandeja. O Ministério Público é a Salomé. Os reis se livram do sagrado em nome do profano.

Uma colônia de dentro pra fora

A realidade está permeada de tanta coisa que parece não ter mais jeito. O Brasil de pouco em pouco tem se tornado uma colônia de fora pra dentro e de dentro pra fora, cada um faz o seu tanto, uma cova medida que lhes coubesse enquanto vida, coisa da poesia cabralina. João Cabral de Melo Neto escreveu em Morte e Vida Severina que o retirante nordestino carregava consigo apenas o direito a uma cova rasa. A metáfora, setenta anos depois, permanece atual: cada um ocupa o espaço mínimo que lhe cabe, sem perspectiva de ampliá-lo.

Esse pantanoso brejo não está mais nos morros, nos alagados, nos guetos. Ele está por toda parte. Como diz o ditado, quem muito abraça pouco aperta. Há frouxidão pra todo lado, só precisando ser rico e bem aparecido aos braços do Estado. Também há aperto para quem ainda não pode ser abraçado, recorrendo ao que lhe estiver mais próximo, não importa se certo ou errado. Onde o Estado falha, há sempre um outro braço para remediar, e esse não é invertebrado.

A democracia invertebrada

O Brasil está adoentado, mas a invertebrada democracia não corre risco. Ainda temos uma imprensa livre e quando alguém quer puxar a verdade para o fim da fila tem um tenente jornalista a dizer quem está na frente é o amigo do amigo do meu pai. Assim a gente anda mais um pouco até se separar como mais um americano louco, impondo um preço caro para quem não é abraçado e carregará o que sobrar desse corpo dilacerado.

O corpo dos governos tem dois braços. O povo tem dois pés, mas só anda se houver chão. E o chão, cada vez mais, é de quem pode pisar sem pedir licença.

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