Desigualdade na Cultura Brasileira: Entenda Como Renda, Raça e Segurança Moldam o Acesso
A mais recente edição da pesquisa Hábitos Culturais, realizada pelo Observatório Fundação Itaú com o apoio técnico do Datafolha, revela um panorama complexo e multifacetado do acesso à cultura no Brasil. Enquanto a digitalização impulsionou significativamente o consumo cultural, com a maioria dos brasileiros participando de atividades online, as barreiras de renda, escolaridade e raça continuam a perpetuar profundas desigualdades no acesso a eventos presenciais. O levantamento escancara que, apesar da crescente diversidade de opções, fatores como custo financeiro e a percepção de insegurança urbana são determinantes que afastam uma parcela significativa da população das experiências culturais fora de casa, consolidando um cenário onde a cultura, para muitos, permanece um privilégio, e não um direito universal.
A Cultura Migra para o Digital: Uma Nova Realidade de Consumo
O cenário cultural brasileiro tem sido profundamente moldado pela era digital. Nos últimos 12 meses, a pesquisa apontou que 90% dos entrevistados realizaram atividades culturais de forma remota, superando as atividades presenciais, que registraram 84% de participação. Esse fenômeno reflete não apenas uma adaptação pós-pandemia, mas também uma mudança estrutural nos hábitos de consumo cultural.
Entre as práticas online mais citadas, destacam-se:
- Ouvir música online (85%)
- Assistir a filmes em plataformas de streaming (74%)
- Assistir a séries (70%)
- Ouvir podcasts (54%)
A comodidade (45%), segurança (34%), flexibilidade de horário (33%) e a redução de custos (23%) são as principais motivações para a preferência pelo ambiente digital, mostrando que a tecnologia oferece soluções para algumas das barreiras encontradas no acesso presencial.
As Barreiras Invisíveis (e Visíveis) do Acesso Presencial
Apesar da alta adesão às atividades culturais em geral, o estudo evidencia que barreiras econômicas e de segurança persistem, limitando severamente a participação presencial. Cerca de 30% dos brasileiros afirmam que deixam de frequentar eventos culturais por motivos financeiros, enquanto 31% citam a insegurança e a violência como as principais razões para evitar esses espaços.
Custo e Transporte: Os Vilões do Orçamento Cultural
O impacto financeiro é um obstáculo significativo. 34% dos entrevistados apontam o custo como a principal barreira para participar de atividades culturais, índice que sobe para 36% entre as mulheres. O preço dos ingressos (22%) e o transporte (19%) são os gastos mais citados como impeditivos. As restrições financeiras se acentuam em cidades de maior porte, onde 43% dos moradores as citam como impeditivo, contra 29% em municípios pequenos.
Insegurança: O Medo que Afasta das Ruas
A preocupação com a violência é alarmante. Entre os que apontaram insegurança, 47% temem assaltos ou furtos, e 21% mencionam a violência contra mulheres nos locais de eventos ou seus arredores, percentual que atinge 28% entre as próprias mulheres. A insegurança é um fator ainda mais crítico em grandes centros, onde 49% dos moradores a apontam como impeditivo, em contraste com 26% em cidades menores.
Um Retrato da Desigualdade: Classe, Escolaridade e Raça
A pesquisa é categórica ao revelar que nível de escolaridade, classe social, porte do município e raça são fatores determinantes para o acesso à cultura no Brasil, acentuando um quadro de profunda desigualdade.
Diferenças Socioeconômicas no Consumo Cultural
Enquanto 96% dos brasileiros com ensino superior e 93% da classe A/B participam de atividades culturais presenciais, esse índice cai para 70% entre os que possuem apenas o ensino fundamental e 71% na classe D/E. As disparidades se repetem no ambiente digital: 98% da classe A/B acessam cultura online, contra 79% na D/E, e 99% dos que têm ensino superior, em comparação com 75% dos menos escolarizados.
Em modalidades específicas, a lacuna é ainda mais gritante: o consumo de cinema é de 91% na classe A/B versus 48% na D/E. No teatro, a diferença é de 76% contra 32%, e em museus, de 73% contra 34%. Entre pessoas com ensino superior, esses índices sobem para 92% (cinema), 80% (teatro) e 80% (museus), caindo para cerca de 32% entre quem tem apenas o fundamental.
O Cenário Racial da Cultura
O recorte racial reforça o quadro de disparidade. Entre brancos, o acesso a cinema, teatro e museus é de 80%, 64% e 64%, respectivamente. Já entre negros, esses números caem para 69%, 51% e 48%. A desigualdade no teatro, em particular, cresceu entre 2022 e 2025, passando de 17 para 28 pontos percentuais a distância entre o acesso das classes A/B e D/E.
Espaços Públicos: Onde a Cultura Ainda Resiste (e Luta por Mais Acesso)
Apesar de todas as barreiras, praças, ruas, parques e igrejas continuam sendo os principais locais de acesso à cultura para muitos brasileiros. 65% dos entrevistados citaram praças ou ruas, 60% igrejas e 52% parques, indicando um crescimento na busca por esses espaços (5 pontos percentuais em relação a 2024).
No entanto, o acesso a esses espaços também é desigual: 70% dos indivíduos da classe A/B participam de atividades culturais em praças ou ruas, ante 54% na D/E. Em parques, a diferença é ainda maior (67% contra 37%).
Cultura no Bairro: Um Passo Tímido Rumo à Descentralização
A pesquisa aponta um leve avanço na descentralização cultural, com um aumento de 5 p.p. entre os que participaram de atividades presenciais em seus próprios bairros, chegando a 64% em 2025. Contudo, mais da metade dos brasileiros das classes D/E e com ensino fundamental nunca participaram de eventos culturais locais, mostrando que há um longo caminho a percorrer para que a cultura se torne verdadeiramente acessível a todos, em suas próprias comunidades.
Frequência e Motivações: O Que Nos Move à Cultura?
A frequência às atividades presenciais manteve-se estável, com 61% realizando pelo menos uma vez por mês e 28% semanalmente. As principais motivações para buscar a cultura são variadas:
- Relaxar e diminuir o estresse (44%)
- Conhecer novos lugares (40%)
- Adquirir conhecimento (34%)
- Viver novas experiências (34%)
- Melhorar a saúde (32%), com um notável crescimento de 7 p.p. em relação a 2024
No ambiente online, o aumento da frequência é ainda mais acentuado: o número de pessoas que praticam atividades culturais em casa pelo menos uma vez por semana subiu 25 p.p., atingindo 74% em 2025, impulsionado pela comodidade e segurança.
O Império do Streaming e as Novas Plataformas Digitais
O consumo cultural online é inegavelmente impulsionado pelas plataformas de streaming. 87% dos entrevistados acessaram serviços sob demanda, um aumento expressivo de 19 p.p. desde 2023. As plataformas mais utilizadas são Netflix (64%), YouTube Premium (33%), Globoplay (25%), Amazon Prime Video (23%) e Disney+ (16%). O uso é mais alto entre os jovens (98%) e em regiões metropolitanas (91%), caindo para 84% no interior.
As programações preferidas incluem séries (57%), filmes estrangeiros (53%), documentários (36%), filmes nacionais (34%) e shows musicais (30%). É interessante notar que quase metade (48%) acredita que o streaming reduz as idas ao cinema. Para vídeos curtos, o YouTube lidera (64%), seguido por Instagram (52%) e TikTok (45%). O consumo no Kwai é mais frequente entre as classes D/E e os menos escolarizados.
Quanto Custa a Experiência Cultural no Bolso do Brasileiro?
A questão financeira persiste como um fator crucial. Entre os que realizam atividades presenciais, 60% afirmam ter gastos mensais com cultura, uma queda de 7 p.p. desde 2023. A maioria (49%) gasta até R$ 100 por mês, com destaque para a faixa entre R$ 76 e R$ 100 (21%). No ambiente digital, 78% declaram gastos culturais, e essa proporção cresce conforme aumentam a escolaridade e a renda.
Questionados sobre quanto pagariam por uma atividade hoje gratuita, 31% responderam “mais de R$ 50”, e o valor médio que o brasileiro estaria disposto a pagar subiu de R$ 84 em 2024 para R$ 97 em 2025. Os eventos pelos quais as pessoas estariam mais dispostas a pagar incluem teatro e stand-up (90%), aniversário da cidade (89%), shows de música (85%), exposições (83%) e festas juninas (82%).
Conclusão: O Desafio da Democratização Cultural no Brasil
A 6ª edição da pesquisa Hábitos Culturais do Observatório Fundação Itaú nos oferece um espelho da complexa relação do brasileiro com a cultura. Se por um lado a tecnologia abriu portas e democratizou o acesso a conteúdos, por outro, as desigualdades socioeconômicas e raciais, somadas às preocupações com segurança, continuam a ser muros que impedem que milhões de pessoas desfrutem plenamente da cultura presencial. Para construir um Brasil onde a cultura seja um direito de todos, e não um privilégio, é imperativo que políticas públicas de incentivo, acesso e segurança sejam fortalecidas, garantindo que o valor da arte e do conhecimento chegue a cada cidadão, independentemente de sua renda, cor ou nível educacional.