EUA devem decidir tarifas ao Brasil até 15 de julho; negociações seguem travadas
O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, afirmou nesta quinta-feira (9) que a decisão sobre as tarifas propostas contra importações brasileiras será anunciada "muito em breve", com o prazo legal expirando em 15 de julho. As negociações entre os dois países, no entanto, seguem travadas, com Greer admitindo que "ainda há uma grande distância" entre as posições de Washington e Brasília.
O que está em jogo
O Brasil é alvo de duas propostas tarifárias distintas dos EUA. A primeira, anunciada em 1º de junho sob a Seção 301, prevê uma sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros. A investigação do Escritório do Representante Comercial (USTR) cita como justificativas supostas práticas comerciais desleais, incluindo favorecimento ao Pix, acordos preferenciais de comércio, políticas de etanol, desmatamento, corrupção e pirataria.
A segunda proposta, divulgada em 2 de junho, investiga 60 economias por supostas falhas no combate ao trabalho forçado. Destas, 54 países — incluindo o Brasil — enfrentariam uma tarifa adicional de 12,5%, enquanto outros seis, como Canadá, México e União Europeia, receberiam alíquota de 10%. O USTR reconheceu que o Brasil possui mecanismos internos, como a "lista suja", mas considerou que essas ferramentas não são suficientes para barrar produtos estrangeiros produzidos em condições análogas à escravidão.
Negociações em impasse
A audiência final sobre as tarifas foi realizada nos dias 6 e 7 de julho, e o período de consulta pública já se encerrou. Greer declarou que os Estados Unidos estão "muito concentrados em corrigir o déficit comercial por meio de tarifas", sinalizando que a administração Trump mantém posição firme.
Do lado empresarial, companhias como Coca-Cola, Nestlé, Tesla, Faber-Castell e eBay enviaram manifestações formais ao governo norte-americano pedindo que a sobretaxa de 25% não seja implementada. As empresas argumentam que a medida elevaria custos para o consumidor americano e prejudicaria cadeias de fornecimento já estabelecidas.
Impacto no comércio bilateral
Os dados comerciais já refletem o efeito das tensões. A participação dos Estados Unidos no comércio exterior brasileiro caiu para 11,2% nos cinco primeiros meses de 2026 — o menor patamar já registrado. O presidente da Amcham Brasil, Abrão Neto, alertou que a aplicação de novas tarifas "prejudicaria ambas as economias, impactando negativamente o setor produtivo e os consumidores americanos".
Cenário global adiciona pressão
A decisão sobre as tarifas ocorre em um momento delicado para a economia global. O Fundo Monetário Internacional (FMI) publicou em 8 de julho a atualização do World Economic Outlook, projetando crescimento global de 3,0% para 2026 — uma queda de 0,1 ponto percentual em relação à previsão de abril. O relatório destaca que as tensões comerciais e o conflito no Oriente Médio pesam sobre importadores de energia e economias vulneráveis.
Para o Brasil, o cenário traz sinais mistos: o FMI revisou para cima a projeção de crescimento do país em 0,5 ponto percentual para 2026, mas a inflação global foi elevada para 4,7%, refletindo o impacto dos choques energéticos e das disputas comerciais.
Próximos passos
Com o prazo de 15 de julho se aproximando, o Brasil aguarda a decisão que pode afetar setores como café, açúcar, etanol, calçados e ferro-gusa. Caso as duas sobretaxas sejam aplicadas de forma cumulativa, produtos brasileiros poderiam enfrentar tarifas adicionais de até 37,5% no mercado americano, o que reconfiguraria significativamente o fluxo comercial entre as duas maiores economias das Américas.