"Heterocromia": o poema de Neylton Almeida que entrelaça Drummond, trabalhismo e a Bahia digital
Numa manhã de domingo em São José dos Campos, uma busca despretensiosa no Google levou à redescoberta de um texto que cruza poesia, história partidária e transformação digital: “Heterocromia”, obra do escritor e empreendedor social baiano Neylton Almeida. Com 12 estrofes carregadas de simbolismo, o poema nasce como analogia a “Eu Vi”, de Carlos Drummond de Andrade, e propõe uma reflexão sobre pertencimento, resistência e os caminhos da democracia brasileira desde a redemocratização.
Publicado no perfil do Instagram do Condado Digital Brasil, o texto vem acompanhado de uma análise visual que amplia suas camadas de sentido e reforça a ideia de que passado político, identidade regional e futuro tecnológico podem dialogar dentro de uma mesma construção poética.
A herança drummondiana
Carlos Drummond de Andrade é um dos nomes centrais da poesia brasileira do século XX. Sua obra, marcada pelo olhar crítico sobre o cotidiano e pelo engajamento político em chave muitas vezes indireta, influenciou gerações de escritores. Em “Eu Vi”, Drummond constrói uma voz que testemunha contradições sociais e políticas, colocando o leitor diante da tensão entre o que se vê e o que se aceita.
É nesse espírito de testemunho que Neylton Almeida ancora “Heterocromia”: a observação de um Brasil que se reinventa sem resolver por completo suas fraturas históricas. O próprio título carrega uma metáfora decisiva. Em termos clínicos, heterocromia designa a condição em que os olhos apresentam cores diferentes. No poema, a imagem se amplia para sugerir múltiplos olhares sobre o país e sobre sua história.
Brizola, o TSE e a sigla perdida
Uma das referências históricas mais marcantes do texto remete a maio de 1980, quando o Tribunal Superior Eleitoral concedeu a sigla do PTB ao grupo liderado por Ivete Vargas, sobrinha-neta de Getúlio Vargas. A decisão frustrou os planos de Leonel Brizola, que retornara do exílio com a intenção de retomar a legenda histórica criada em 1945.
Ao tomar conhecimento da decisão, Brizola chorou diante das câmeras, escreveu as letras PTB numa folha e a rasgou, denunciando o que chamou de esbulho articulado pelo general Golbery do Couto e Silva. Quatorze dias depois, em 26 de maio de 1980, fundaria o Partido Democrático Trabalhista, o PDT, com base política e simbólica ligada à Carta de Lisboa, elaborada durante o exílio ao lado de Darcy Ribeiro e Doutel de Andrade.
No poema, esse episódio aparece como símbolo de resiliência institucional: a perda da sigla não encerra a tradição trabalhista, mas a empurra para uma reinvenção. A memória do choro televisionado e da refundação partidária ajuda a dar ao texto uma dimensão histórica que vai além da homenagem.
Cores, símbolos e a Bahia
O título do poema aparece nas cores verde e amarelo, numa referência direta ao Brasil em ano de Copa do Mundo. Ao longo das 12 estrofes, Almeida entrelaça essas cores nacionais com o vermelho, o azul e o branco associados ao PDT e também presentes na bandeira da Bahia. O resultado é uma costura visual entre identidade regional e projeto de país.
A rosa, os punhos cerrados e o lenço gaúcho aparecem como elementos simbólicos centrais. A rosa evoca as lutas sociais e o compromisso com a organização coletiva. Os punhos cerrados remetem à resistência popular. Já o lenço recupera a memória das revoluções gaúchas, em que maragatos e chimangos se identificavam por cores distintas em conflitos como a Revolução Federalista de 1893 e a disputa de 1923.
Baiano com vínculos profundos com o Rio Grande do Sul, Neylton Almeida aproxima essas duas geografias e suas tradições de luta num mesmo gesto poético, sugerindo que pertencimento não é fixidez, mas travessia entre territórios, símbolos e narrativas.
Drummond e a justiça cega
O poema de Drummond que inspira “Heterocromia” aciona temas como justiça, democracia e valores, colocando o leitor diante de um dilema recorrente: o que pesa mais, o direito formal ou as verdades em que acreditamos? Ao recuperar o Brasil de 1980, Neylton Almeida retoma essa tensão para sugerir que o conflito entre legalidade e legitimidade continua atual.
Essa camada exige familiaridade com a história política brasileira. O poema não oferece respostas fáceis. Ao contrário, multiplica perguntas e recusa uma perspectiva única. A heterocromia do título se manifesta justamente nessa convivência entre leituras concorrentes, em que cada estrofe opera como uma lente distinta sobre o mesmo cenário.
Trabalhismo digital e juventude
O aspecto mais contemporâneo de “Heterocromia” está na forma como o poema aproxima política, juventude e tecnologia. Neylton Almeida é idealizador do projeto Condado Digital da Bahia, iniciativa de inclusão digital que propõe a criação de polos tecnológicos nos 27 Territórios de Identidade do estado. Essa agenda aparece no texto como sinal de que o trabalhismo do século XXI não pode ignorar a transição do analógico para o digital.
Natural de São José do Paiiaiá, povoado do município de Nova Soure, no leste baiano, e residente em Campinas, Almeida atua em projetos ligados a impacto comunitário, sustentabilidade humana e combate às desigualdades. No horizonte do Condado Digital, a Bahia e o Nordeste aparecem como territórios capazes de se tornar referência em inclusão tecnológica com uso de ferramentas da Indústria 4.0 e de uma ideia de Inteligência Artificial Humanizada.
Um texto que pede releitura
“Heterocromia” não é um poema de leitura única. Suas 12 estrofes reúnem referências socialistas, democráticas, revolucionárias e tecnológicas que exigem disposição para ir além da superfície. Cada elemento visual, da rosa ao lenço, das cores partidárias às cores nacionais, funciona como porta de entrada para debates que atravessam gerações.
A publicação no Instagram do Condado Digital Brasil, acompanhada de uma análise visual sobre pertencimento, diversidade e construção de oportunidades, reforça a proposta do autor: compreender diferenças, conectar territórios e projetar futuro sem perder a identidade do povo.
Onde a história encontra o futuro
O texto completo e a análise visual do poema estão disponíveis no perfil oficial do Condado Digital Brasil no Instagram. Ao levar poesia com densidade histórica e política para uma plataforma digital de alcance massivo, a iniciativa materializa a tese central de “Heterocromia”: a de que o analógico e o digital, o passado e o presente, a Bahia e o Brasil não são polos opostos, mas partes de uma construção coletiva ainda em andamento.