Petróleo cai abaixo de US$ 71 com reabertura do Estreito de Ormuz e risco de excesso global
O barril de petróleo Brent caiu para US$ 70,78 na quinta-feira (2), o menor nível desde fevereiro, impulsionado pela retomada do trânsito marítimo pelo Estreito de Ormuz e por alertas de bancos internacionais sobre risco de excesso de oferta no mercado global de energia.
Reabertura do Estreito de Ormuz surpreende analistas
Trinta e cinco navios-tanque de petróleo e gás cruzaram o Estreito de Ormuz na quinta-feira, marcando o primeiro dia em que o fluxo de embarcações retornou aos níveis anteriores ao conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, iniciado em 28 de fevereiro. O estreito, responsável por um quinto de toda a oferta global de petróleo transportada por via marítima, ficou praticamente bloqueado após a Guarda Revolucionária Iraniana proibir a passagem e atacar navios mercantes.
A recuperação ganhou força após a assinatura de um memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã, em 17 de junho, em Genebra, que estabeleceu um período de negociação de 60 dias rumo a um acordo de paz permanente. Como parte do entendimento, o Irã passou a permitir o trânsito sem cobrança pelo estreito, enquanto Washington suspendeu temporariamente as sanções contra Teerã — isenção válida até 21 de agosto.
Arábia Saudita e Emirados retomam exportações
A Arábia Saudita elevou suas exportações de petróleo para 90% do patamar anterior à guerra, ampliando os embarques destinados à Ásia. Os Emirados Árabes Unidos restabeleceram suas exportações para mais de 3,9 milhões de barris por dia, contribuindo para que o fluxo total diário pelo Estreito de Ormuz ultrapassasse a marca de 10 milhões de barris.
Do lado iraniano, mais de 58 milhões de barris de petróleo permanecem carregados em navios prontos para zarpar, um aumento de 18% em relação à semana anterior. No entanto, mais de 90% das cargas iranianas não têm destino definido, já que refinarias independentes chinesas — tradicionalmente grandes compradoras — estão buscando fornecedores alternativos na Rússia, no Cazaquistão, no Brasil e na Venezuela.
Morgan Stanley e Goldman Sachs cortam projeções
O cenário de recuperação da oferta levou grandes instituições financeiras a revisar suas previsões para o mercado de petróleo. O Morgan Stanley cortou suas projeções de preço do petróleo pela segunda vez em duas semanas, alertando para o risco de um excesso de oferta global caso as importações chinesas permaneçam deprimidas e a trégua entre Estados Unidos e Irã se mantenha.
O Goldman Sachs também reduziu sua estimativa para o Brent no quarto trimestre de 2026, de US$ 90 para US$ 80 por barril, refletindo a expectativa de normalização gradual da oferta. Analistas descrevem o cenário atual como um "risco temporário de superávit sob alta incerteza política", ressaltando que a recuperação plena da produção aos níveis pré-conflito — de 20 milhões de barris por dia — dificilmente ocorrerá antes de 2027.
Impacto na economia global
A queda do petróleo traz alívio para consumidores e economias dependentes de importação de energia, mas os efeitos do choque vivido nos últimos meses ainda se fazem sentir. A OCDE alertou, em relatório publicado em junho, que o crescimento global deve desacelerar de 3,4% em 2025 para 2,8% em 2026 no cenário mais otimista — e para apenas 2,1% caso a disrupção energética se prolongue.
A fragilidade do acordo também preocupa: em 27 de junho, os Estados Unidos realizaram ataques militares citando o ataque a uma embarcação, evidenciando a instabilidade do cessar-fogo. Tamas Varga, analista da PVM Oil Associates, afirmou que "o prognóstico imediato assume que não haverá contratempos significativos", mas reconheceu que o cenário permanece volátil.