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Tecnologia, gestão pública e juventude: o debate sobre o lugar do Brasil na nova ordem global

Neilton Almeida
política 9 min de leitura
Ilustração artística de dois olhos com íris de cores diferentes — verde-amarelo e vermelho-azul-branco, cercados por símbolos de resistência, poesia e tecnologia, representando a diversidade de olhares sobre o Brasil.

A tese de que a globalização teria chegado ao fim tem sido repetida por analistas, professores e jornalistas nos últimos anos, mas especialistas em comércio internacional e geografia econômica afirmam que o fenômeno não acabou, passou por uma reconfiguração. O que se alterou foram os arranjos de negócios entre nações, num movimento marcado pela ascensão de cadeias produtivas regionais, disputas tecnológicas entre Estados Unidos e China e exigências crescentes de soberania digital. Para o Brasil, e em especial para estados de grande extensão territorial como a Bahia, o debate sobre tecnologia, inclusão digital e gestão pública ganhou centralidade.

A reconfiguração da globalização

A literatura recente sobre economia internacional aponta que o termo correto não seria fim da globalização, mas reglobalização ou globalização fragmentada. Relatórios do Fundo Monetário Internacional e da Organização Mundial do Comércio publicados nos últimos anos descrevem uma reorganização das cadeias de suprimento em torno de blocos geopolíticos, com priorização de aliados comerciais, o chamado friend-shoring, e crescente regulamentação de tecnologias sensíveis como semicondutores e inteligência artificial.

Nesse cenário, países emergentes que dispõem de mercado interno robusto, base agrícola e industrial diversificada e bônus demográfico ainda em curso tendem a ganhar peso relativo. O Brasil reúne essas três condições. A questão em aberto é se o país conseguirá traduzir esse potencial em política pública consistente de inclusão digital, formação técnica e infraestrutura tecnológica nos interiores e nas periferias urbanas.

A Bahia e a herança de Milton Santos

A divisão da Bahia em 27 Territórios de Identidade, instituída em 2007 durante o governo Jacques Wagner pela Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais, a SEI, é frequentemente citada como exemplo de regionalização baseada em critérios culturais, ambientais e econômicos, e não apenas administrativos. A metodologia bebe de uma tradição da geografia brasileira que tem em Milton Santos, nascido em 1926 e morto em 2001, seu nome mais influente.

Milton Santos, baiano de Brotas de Macaúbas e único brasileiro a receber o Prêmio Vautrin Lud, considerado o Nobel da geografia, propôs a divisão do Brasil em quatro grandes regiões com base no conceito de meio técnico-científico-informacional, em obra coassinada com Maria Laura Silveira. Para Santos, a desigual distribuição da informação e das finanças pelo território determina as possibilidades concretas de desenvolvimento. A regionalização baiana incorpora essa lógica ao tentar identificar agrupamentos com identidade própria, em vez de impor recortes meramente burocráticos.

Automação, agroindústria e trabalho autônomo

O século XXI traz três frentes simultâneas de transformação produtiva que pressionam diretamente o debate sobre tecnologia e território. A primeira é a automação de plantas industriais, com adoção crescente de robótica e sistemas integrados da Indústria 4.0. A segunda é a tecnificação da agroindústria, em que sensores, drones e plataformas de gestão de dados se tornam padrão. A terceira é a expansão dos serviços prestados por profissionais autônomos, intermediados por plataformas digitais, fenômeno que cresce em todas as faixas etárias, mas com forte presença entre jovens.

Para regiões interioranas e periferias urbanas, o risco de exclusão dessa transformação é concreto. Estudos do Comitê Gestor da Internet no Brasil, o CGI.br, mostram que persistem disparidades regionais significativas no acesso à banda larga, em equipamentos e em letramento digital. Sem políticas públicas que enfrentem essa desigualdade, a promessa de democratização da tecnologia se converte em concentração de oportunidades nos grandes centros.

O lugar da gestão pública

Há um debate aberto sobre se a gestão pública brasileira tem acompanhado o ritmo das transformações tecnológicas. De um lado, defensores da atuação estatal apontam iniciativas como o programa Wi‑Fi Brasil, a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial e os investimentos em centros de pesquisa. De outro, críticos argumentam que o Estado tem se limitado a reagir à iniciativa privada, sem propor uma agenda autônoma de democratização tecnológica para o interior e as periferias.

Essa lacuna gera permeabilidade a discursos ideológicos de diferentes espectros. Quando a política pública não preenche o vazio, narrativas privadas e algorítmicas ocupam o espaço, tanto no debate técnico quanto na formação de opinião da juventude. O resultado é uma disputa pela definição do que é tecnologia, para quem ela serve e quais valores ela carrega.

O dilema da juventude e dos partidos

Em entrevistas e análises recentes, lideranças do campo da esquerda brasileira têm reconhecido publicamente uma perda de conexão com a juventude, atribuída em parte ao ambiente das plataformas digitais e à influência da inteligência artificial sobre comportamentos e preferências. Pesquisas eleitorais e estudos do Datafolha e do Ipec dos últimos anos mostram crescimento do apoio a posições de direita entre eleitores jovens, sobretudo entre homens de 16 a 24 anos.

As leituras sobre o porquê dessa mudança são divergentes. Setores progressistas tendem a apontar o papel das big techs, a desinformação e a influência de figuras digitais conservadoras. Já analistas de viés liberal ou conservador argumentam que a esquerda perdeu apelo ao manter um discurso fortemente atrelado ao trabalho formal e ao vínculo empregatício tradicional, num momento em que a juventude opera em economias de plataforma, freelancing e empreendedorismo digital. O Brasil tem uma das legislações trabalhistas mais detalhadas do mundo, segundo levantamentos da Organização Internacional do Trabalho, e o debate sobre estender ou flexibilizar esse marco para o digital é central nessa disputa.

Discurso e entrega

Críticos da direita brasileira observam que o discurso de menos regulação e mais liberdade econômica raramente se traduz em entregas concretas quando esses grupos chegam ao poder. Críticos da esquerda apontam que o apego a modelos trabalhistas do século XX se descola da realidade de quem trabalha por aplicativo, vende cursos online ou produz conteúdo. Ambos os campos enfrentam o mesmo desafio estrutural: como traduzir tecnologia em renda, mobilidade social e autonomia para faixas da população historicamente excluídas.

O que está em jogo para o Brasil

A reconfiguração da globalização abre uma janela rara para países com escala continental, base produtiva diversificada e capital humano em formação. Aproveitá-la depende menos de discursos sobre o fim da globalização do que de decisões concretas sobre infraestrutura digital, formação técnica, regulação proporcional e diálogo com as gerações que já operam dentro da economia digital. O debate sobre tecnologia e política, na Bahia e no Brasil, é menos sobre escolher um lado e mais sobre construir uma agenda que sobreviva ao próximo ciclo eleitoral.

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