UNESCO alerta: 113 países gastam mais com dívida do que com educação
A UNESCO reuniu líderes de mais de 30 países em Paris na última sexta-feira (10) para discutir a crise global no financiamento da educação. Segundo a organização, 113 nações — que abrigam 6,1 bilhões de pessoas — destinam mais recursos ao pagamento de dívidas do que aos seus sistemas educacionais.
Cúpula em Paris expõe crise de financiamento
O encontro, chamado Cúpula pela Transformação da Educação +4 (TES+4), reuniu o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, a vice-secretária-geral da ONU, Amina J. Mohammed, mais de 30 ministros da Educação, representantes de bancos de desenvolvimento, sociedade civil e líderes juvenis. O evento foi realizado na sede da UNESCO, em Paris.
Os dados apresentados revelam uma situação alarmante: países de baixa renda gastam quase quatro vezes mais com o serviço da dívida do que com educação. Em 18 nações altamente endividadas, essa proporção chega a ser cinco vezes maior. O déficit anual de financiamento educacional em países de baixa e média-baixa renda é estimado em US$ 97 bilhões.
Ajuda internacional à educação em queda
A situação é agravada pela retração dos recursos internacionais. A ajuda global à educação caiu 8% em 2024 em relação ao ano anterior, e o apoio à educação básica recuou 15%. A participação da educação na assistência oficial ao desenvolvimento caiu para 7,5% em 2024 — o menor patamar em duas décadas.
A UNESCO projeta que a ajuda global à educação pode cair até 30% entre 2023 e 2027, o que perpetuaria ciclos de desigualdade e comprometeria o futuro de milhões de crianças e jovens em países vulneráveis.
Trocas de dívida por educação como solução
Para enfrentar o problema, a UNESCO lançou um guia técnico que orienta governos a implementar as chamadas trocas de dívida por educação (debt-for-education swaps). Nesse mecanismo, parte das obrigações financeiras de um país é cancelada ou refinanciada, com o compromisso de investir os recursos liberados em escolas, professores e programas educacionais.
A organização destacou experiências bem-sucedidas: em 2023, um acordo entre Costa do Marfim e França financiou a construção de mais de 30 escolas, beneficiando 30 mil estudantes. No Egito, em 2024, uma troca com a Alemanha no valor de 29 milhões de euros financiou alimentação escolar e serviços básicos. No Peru, entre 2006 e 2017, a Espanha converteu US$ 20 milhões em 50 projetos educacionais em oito regiões, alcançando cerca de 174 mil pessoas.
Impacto para países em desenvolvimento
O alerta da UNESCO tem relevância direta para o Brasil e outros países em desenvolvimento. A crise de financiamento afeta desproporcionalmente nações de baixa e média-baixa renda, que perderam 21% dos níveis de ajuda educacional registrados em 2023. Países como Afeganistão, Libéria, Mali e Níger registraram perdas superiores a 40%.
No contexto brasileiro, a pressão da dívida pública sobre as contas nacionais torna o debate especialmente relevante. A UNESCO recomenda que os países priorizem a educação em seus orçamentos, destinando parcelas significativas do PIB ao setor — um compromisso que o Brasil tem buscado manter, mas que enfrenta desafios fiscais crescentes.
A Cúpula TES+4 reforçou o compromisso de que o financiamento da educação deve ser tratado como prioridade estratégica. A UNESCO classificou a situação atual como uma crise que exige ação imediata de governos e instituições financeiras internacionais para evitar que gerações inteiras fiquem sem acesso a ensino de qualidade.